• António Norton

Será a criatividade um antídoto para a perda de sentido existencial?

Atualizado: Abr 28



“Para ser grande, sê inteiro; nada teu exagera ou exclui; sê todo em cada coisa; põe quanto és no mínimo que fazes; assim em cada lago, a lua toda brilha porque alta vive.”  - Fernando Pessoa


Milhões de pessoas acordam de manhã sempre à mesma hora, tomam o mesmo pequeno-almoço rotineiro, vão de carro ou de transportes públicos, fazem o mesmo trajecto, ouvem sempre o mesmo posto de rádio. Chegam aos empregos, recebem uma série de ordens que acatam sem pestanejar. Executam o seu trabalho de forma maquinal e desinteressada, fazem inúmeras pausas, fumam cigarros, conversam sobre os mesmos assuntos de sempre; almoçam no mesmo restaurante, voltam ao trabalho, as mesmas pausas, chega o fim do dia, o mesmo percurso, vão para casa. O jantar apresenta quase sempre a mesma ementa – o lema é não dar trabalho - veem um pouco de televisão com desinteresse. Segue-se a rotina da higiene, fazem amor da mesma forma de sempre e adormecem a pensar que já falta menos para a tão aguardada reforma. 

Esquecem-se, porém, que nessa altura da vida terão muito menos energia física e mental.


Parecerá um retrato extremado e demasiado pessimista, mas confesso que tenho algumas dúvidas de que, realmente, esteja a ser exagerado. Infelizmente, acredito que muitas pessoas vivem assim a sua vida.


O perigo desta forma de agir, de estar, de viver é a consequente dramática e altamente preocupante falta de criatividade, que se exprime na passividade, apatia, desinteresse e perda de sentido existencial.


Haverá solução para esta situação?


Posso ser um optimista irrealista, mas acredito que sim. Acredito que podemos ser diferentes.

Para mim, a resposta está neste poema de Fernando Pessoa. A solução estará na perpetuação da nossa identidade através da ferramenta extraordinária que é a criatividade.

A minha reflexão situa-se, justamente, em torno destas duas ideias basilares: Identidade e criatividade.


Vou colocar a tónica do meu discurso sobretudo na questão da criatividade, que me parece ser uma questão chave para entender a apatia e o desinteresse, no qual, muitas pessoas parecem existir.


Quando somos crianças, a criatividade é algo natural e fundamental para a criação do jogo simbólico, do acto mental da imaginação, da fantasia, do sonho, do “faz-de-conta”.

Todas as crianças desenham, pintam, fazem jogos de palavras, têm amigos imaginários, falam com os seus brinquedos, exploram e divertem-se com uma prenda extraordinária adequada à sua idade.

Ser criança é sinónimo de fantasia e criatividade e todos já fomos crianças…


E a criatividade é absolutamente fundamental para o desenvolvimento de uma identidade própria e única. Ser criativo é encontrar as suas próprias ideias e assim ir de encontro a si próprio, sem se refugiar numa impessoalidade que atrofia, que tolhe a sua formação fortemente herdada a partir de uma sociedade que privilegia o imediatismo.


O que entendo por imediatismo? A obtenção de um fim sem o necessário esforço próprio do meio para o atingir. Ou seja, quando algo nos é oferecido de “mão beijada”, sem haver a definição de uma estratégia para o atingir. Se pensarmos um pouco, a nossa sociedade é cada vez mais orientada para esta linha de acção imediatista. A pouco e pouco, vai se esfumando a capacidade de projectar, de delinear estratégias de acção para atingir fins objectivos. Bebemos e sugamos o que nos é dado quase sem acção crítica. Parece que perdemos a criatividade...     


Ser criativo é procurar e encontrar ideias próprias. Quanto maior for a nossa capacidade de construção da nossa identidade, menor será o risco da alienação e da perda de sentido da existência.


Existe uma ideia que contém algum perigo, pelo seu alcance limitativo e que remete para a criatividade enquanto um dom que apenas alguns possuem. Existem pessoas que afirmam não ser criativas. Sinceramente, não acredito. Podem estar esquecidas do seu potencial criativo, mas duvido que não o sejam. Em crianças, necessariamente experimentaram o espaço da criatividade e actualmente também o podem reencontrar. 

Já todos fomos crianças…


Existe outra ideia que defende que apenas algumas profissões são criativas. Também contesto tal ideia. Obviamente, existem profissões criativas por excelência: as profissões ditas artísticas. Mas em todas as outras podemos pôr algo de nós mesmos. Mesmo nas profissões onde existe um trabalho previamente delineado e com pouca margem de liberdade, é possível desenvolver estratégias únicas e pessoais para lhe dar mais alguma cor e identidade.

 

Então por que não viver de uma forma muitíssimo mais criativa?

Acordar de manhã e tomar um banho com um gel de duche e um champô diferentes, tomar um pequeno almoço com cereais diferentes, experimentar percursos mais rápidos para o emprego, nomeadamente usando o GPS, fazer uma selecção prévia de músicas para ouvir no carro, procurar estratégias que permitam optimizar o seu trabalho. Na pausa, propor conversas diferentes, sobre assuntos novos, procurar receitas para fazer outros jantares, experimentar novas posições para fazer amor.


A criatividade é um espaço infinito de possibilidades e que está ao alcance de cada um de nós. Todos podemos voltar à “Terra do Nunca”. Esta é a grande mensagem do Peter Pan e que infelizmente muitos de nós já a esquecemos. Basta para tal acedermos ao nosso espaço criativo.


Cada momento da nossa vida pode ser inundado pela liberdade criativa e essa liberdade é saborosamente infinita.


Portugal atravessa um período de enorme crise económica. Esta crise pede soluções diferentes, estratégias diferentes. Mas não é só o governo que deverá impor estas mudanças. Cada um de nós pode ser criativo à sua maneira. As mudanças também estão em cada pessoa, em cada um de nós.

O mundo é feito de ideias. E as ideias não são só dos génios, são de cada um de nós, na nossa orgulhosa unicidade!


Uma só boa ideia é mais valiosa do que muitas horas de trabalho rotineiro.

Mas para haver criatividade terá de haver também motivação para o acto criativo. Terá de acreditar em si e no seu potencial inesgotável. Quando estamos deprimidos é difícil acreditar no nosso infinito, mas a Psicoterapia pode fornecer ferramentas para invocar, chamar a si a sua natureza criativa e única.


Justamente por esse motivo, se se encontra vazio, sem criatividade, sem chama, sem energia acredite que a Psicoterapia o poderá ajudar a se reencontrar com a sua criança interior onde a criatividade foi e é infinita.


Aqui lhe deixo o link directo para marcar a sua consulta


https://www.antonionortonpsicoterapia.com/marcar-consulta


Um abraço!

António Norton







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