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© by ANTÓNIO NORTON PSICOTERAPIA

  • António Norton

E quando as surpresas correm mal? O impacto da quebra de expectativas na dinâmica de um casal


Gostaria de falar sobre as consequências psicológicas de uma típica situação num casal em que um dos elementos resolve surpreender o outro elemento e algo corre mal...


Para tornar mais simples a minha reflexão, vou usar os nomes fictícios de João e Maria. Agora, vamos criar uma situação exemplificativa, sobre a qual vos convido a reflectir.


Vamos imaginar que João tem muita vontade de fazer uma primeira surpresa a Maria.

Durante a semana, reserva sempre uma hora do dia para pensar em todos os pormenores relacionados com o momento tão aguardado.

Neste caso, João pensou preparar um jantar romântico. Observou todos os ingredientes que Maria adora, procurou algumas receitas e até viu e gravou programas de televisão sobre culinária.

Encheu-se de expectativas. À noite, pensava várias vezes na reacção de Maria e estava muito entusiasmado com a sua ideia!

Finalmente chegou o dia de a surpreender. Saiu mais cedo e preparou o jantar-surpresa com mil cuidados.

Não estavam a comemorar nada de especial. Tratava-se, simplesmente, de um gesto de amor.


Maria ficou claramente surpreendida, mas achou algo estranho naquele comportamento de João. Pensou que deveria haver mais alguma coisa “na manga” e instalou-se uma emoção onde pautava alguma desconfiança e até algum desconforto.


Aquele momento tão aguardado tornou-se estranho. João sentiu isso e ficou profundamente ofendido, embora não lhe tenha dito nada directamente. Na verdade, ninguém disse abertamente o que se passava naquele estranho jantar. Por outro lado, a comida estava bastante insonsa e Maria pediu para pôr mais sal. Resolveu, também, ir buscar alguns molhos porque a carne estava seca. João engoliu em seco e ainda ficou mais magoado.


A verdade é que após este singular jantar a relação não voltou a ser a mesma...


Está na altura de abrir um pequeno parêntesis: este exemplo é fictício, mas acredito que poderá ocorrer com muitos casais. Mude a temática do jantar, mude alguns pormenores, mas o essencial poderá acontecer.


Estamos a falar de uma situação em que um dos elementos do casal alimenta determinado nível de expectativas e desilude-se com o resultado.


O que pode acontece na dinâmica de um casal quando as expectativas criadas são desiludidas?


Eu dou o exemplo da preparação de uma surpresa, uma vez que é uma situação em que, necessariamente, se criam expectativas sobre a reacção do outro elemento.


Voltemos ao João e à Maria.


Parecia, pois, impossível que a sua relação passasse a ser tão estranha. Sempre se tinham dado tão bem... A dinâmica da sua relação funcionava tão bem!


O que é que aconteceu?


Vamos, então, tentar compreender este quadro de conflito.


Cada pessoa é um mundo. Traz toda a sua educação e todas as aprendizagens que fez ao longo da vida. Umas mais enraizadas, outras não tanto, mas todas fazem parte da sua identidade.


Ao longo da sua infância, cada pessoa aprendeu, de acordo com a forma como se relacionou, uma maneira de se envolver emocionalmente com as situações. Ou seja, voltando ao nosso exemplo fictício, O João e a Maria aprenderam a ter determinadas reacções emocionais perante situações em que são surpreendidos e trazem essas aprendizagens com eles.


Em momentos de surpresa é como se entrassem em piloto automático e corressem o script emocional que trazem.


Cada elemento de um casal deverá ter sempre em linha de conta que, antes de ter conhecido o outro, já trazia um passado e uma forma de viver, emocionalmente, cada situação.


Nunca devemos esquecer a regra de ouro de uma relação amorosa: existe o Eu, o Tu e o Nós.


Voltando ao nosso exemplo, João ficou muito magoado, mas reconhecendo alguma responsabilidade no facto da carne estar insonsa, ainda tentou fazer uma ou outra surpresa a Maria. Por sua vez, Maria, ao não querer desiludir ainda mais o João sentiu-se forçada a gostar das surpresas seguintes. Tudo passou a ser forçado e artificial. Gerou-se uma dinâmica condicionada de expectativa e de necessidade, de reciprocidade forçada na qual o João procurava agradar Maria e esta, mesmo que não gostasse, dizia que gostava com um sorriso amarelo.


Não havia, verdadeiramente, frontalidade e autenticidade. Havia sim algo forçado...


João, a pouco e pouco começou a perder o interesse em fazer surpresas e, lentamente, perdeu a vontade de investir na relação.

Por seu lado, Maria começou a sentir-se na obrigação de fazer surpresas a João que ficou, por sua vez, surpreendido com a atitude de Maria. E desta vez o sorriso amarelo vinha da sua parte.


O assunto “surpresas” passou a ser um terreno pantanoso, de areias movediças, um tema delicado entre o casal....


O que é que correu mal?


Inicialmente, João teve a melhor das intenções ao querer fazer uma surpresa a Maria, mas não contou com a reacção de desconfiança dela. João, efectivamente, não sabia e continuou a não saber que durante toda a infância Maria recebeu várias surpresas por parte dos seus pais, mas logo a seguir sentia-se abandonada porque eles, após a presentearem com algo, partiam sempre em longas viagens e deixavam-na com os avós. Maria habitou-se a criar uma natural desconfiança perante estas “surpresas”. Maria sabia disto, mas julgava que tal tinha ficado no passado. Não se tinha apercebido de como essa sensação, ainda nos dias de hoje, lhe era tão desconfortável.


Onde é que este casal errou? Errou ao pessoalizar a situação. João sentiu-se pessoalmente ofendido. Ficou triste, magoado e zangado e esta zanga minou toda a relação.


O que é preciso fazer?


Para um casal existir de forma harmoniosa, é fundamental saber comunicar! E mais do que isso, não pessoalizar, de imediato, certas atitudes. Os comportamentos devem ser entendidos dentro de contextos, do presente e do passado.


Teria sido extremamente útil uma conversa entre Maria e João na qual falassem sobre o incidente ocorrido. Talvez algo como:

- Maria, fiquei muito magoado com a tua reacção! O que é que te deu? Parece que ficaste muito desconfortável com a situação!

- João, não sei o que se passou... Foste um querido, mas eu não sei. Sei lá! Não gosto de surpresas!

- Hum... pensa lá um bocadinho... Houve alguma situação anterior, relativa a surpresas, em que te tenhas sentido desconfortável?

- Por que dizes isso?! Deixa-me pensar... Olha, até houve várias!

E assim seria possível entrar num campo de entendimento.


Este tipo de comunicação é muito, mas mesmo muito importante no todo de um casal!

Portanto, não pessoalize logo as situações e procure sempre perceber a história de vida da pessoa que tem ao seu lado!


Se a zanga já mina toda a relação, então a Psicoterapia poderá ser uma ajuda preciosa para se conhecer emocionalmente e sair de um registo de pessoalização, culpabilização e acusação que transporta para a dinâmica do casal.


Se for o seu caso:


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Um abraço


António Norton


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