• António Norton

Nova gravidez após aborto espontâneo - Partilhar ou esconder?


Gostaria de propor uma reflexão sobre as consequências psicológicas que sobrevêm quando uma mulher, que sofreu um aborto espontâneo, volta a engravidar e resolve esconder o seu estado fisiológico.


Decidi escolher esta questão, uma vez que é um tema comum dentro do universo psicológico de uma mulher que sofreu um aborto e voltou a engravidar.


Uma gravidez interrompida, involuntariamente, traz uma herança psicológica pesada. O corpo deixa de ser cem por cento confiável, passa a ser uma “casa” que gera insegurança, desconforto e desconfiança. Uma mulher que sofreu um aborto espontâneo, sente que o corpo a traiu; sente quase como uma incapacidade de identificação com o seu corpo. É frequente surgirem estes pensamentos: “Como foi possível o meu corpo fazer-me algo assim?” “Eu estava tão feliz, como foi possível?”.

A incredulidade e a desilusão são motores psicológicos que geram na futura gravidez insegurança e desconforto: “Eu não confio no meu corpo”. É comum surgir a hiper vigilância com todos os sinais que o corpo apresenta e a gravidez deixa de ser vivida de forma harmoniosa para passar a ser habitada por estados de tensão e ansiedade.

É comum surgirem pensamentos como “E se corre mal?” “E se o meu corpo volta a rejeitar o meu bebé?”.

A dúvida instala-se e não abandona a grávida, mantendo-se até ao nascimento.

As ecografias positivas que garantem a saúde do feto dão alguma segurança, mas a dúvida continua sempre a corroer interiormente e a ter o seu efeito na evolução do estado de tensão.

Após o trauma de um aborto é natural a grávida passar a ter outro nível de cuidado na exposição social da sua condição. Há sempre o medo de gerar expectativas, de trazer sorrisos, lágrimas de alegria, abraços, felicitações que podem cair no vazio.

É um assunto difícil de gerir, o dilema entre o partilhar deste estado, ou permanecer no segredo, o que é confortável pois não vai gerar expectativas, mas desconfortável porque não vai permitir usufruir e viver em pleno este estado maravilhoso.

Estar grávida é uma experiência maravilhosa, única, mágica, mas que naturalmente pode ser encarada e vivida de uma forma extremamente ansiosa.

Quando a grávida, vítima de uma interrupção involuntária de gravidez, nega o seu estado, quando esconde, quando não partilha a sua condição, quando controla a sua alegria está, inevitavelmente, a criar estados de tensão. 

Está clinicamente provado que estados de elevada ansiedade contribuem fortemente para o desencadear de um aborto espontâneo. É, pois, fundamental minimizar estes estados ansiosos.

Quanto mais se resguarda e mais se defende, mais cria micro-tensões dentro de si. Se prefere não ir ter com amigos, ou não ir trabalhar por medo que descubram o seu estado e criem expectativas, está a criar tensões dentro de si, não vivendo livremente este momento tão especial da sua vida.

De certa forma, uma mulher grávida que viveu uma experiência de aborto natural, ao esconder a sua gravidez, acaba por não viver em pleno o seu estado.

Imaginemos que uma pessoa viveu um desgosto de amor profundo que deixou marcas a ponto de esta pessoa ao encontrar alguém com quem se poderia apaixonar e entregar acaba por conter, reservar e esconder todo o seu amor, não se entregando. Esta pessoa vai desperdiçar a possibilidade de viver em pleno o milagre da descoberta de um novo amor, porque tem medo de voltar a sofrer.

De certa forma, de igual modo, uma mulher grávida que viveu uma experiência de aborto natural, ao esconder a sua gravidez de todos, acaba por não viver em pleno o seu estado.

Portanto, até que ponto não será contraproducente esta atitude de contenção e tentativa de omissão do seu estado, facilmente compreensível perante uma anterior interrupção espontânea da gravidez?

Pode estar a contribuir para criar ainda mais ansiedade, com a agravante de não viver em pleno um estado único e maravilhoso.

Se está ou conhece alguém que esteja a passar por um momento desta natureza, por este dilema, e a  viver intensamente este conflito sem encontrar uma solução, sugiro que procure ou sugira sem hesitação, a ajuda que a Psicoterapia lhe trará.

Deixo-lhe o link directo para marcação da sua consulta.

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Um abraço

António Norton


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