• António Norton

Falemos sobre suícidio


Hoje, pensei escrever sobre um tema violento, intenso, dramático e perturbante. 

Refiro-me ao suicídio. 

Trago este tema em virtude de, recentemente, termos todos sido informados de um suicídio de mais uma pessoa que, aparentemente, tinha tudo para ser feliz…

A pergunta central e inevitável que surge em todos nós quando alguém se suicida é: porquè? 

O “porquê” ainda ganha mais força quando, aparentemente, nada o fazia prever…

Como Psicoterapeuta, durante o meu percurso clínico, tenho recebido várias pessoas que têm a intenção de se suicidar. Algumas surgem na minha consulta já com tentativas de suicídio e com episódios de internamento. 

Talvez seja demasiada extrapolação da minha parte, mas permitam-me a ousadia de referir um elemento comum ao tema do Suicídio. 

Uma pessoa que pretende suicidar-se, geralmente, fá-lo porque é invadida por um sentimento intenso e quase constante de auto-vergonha, o qual gera um impulso de auto-agressão que poderá culminar no suicídio.

A vergonha é sentida, muitas vezes, em silêncio. O para-suicida poderá partilhar que se sente impotente, não aguenta mais o sofrimento que vive, mas raramente falará ou partilhará a vergonha que sente e que teme, no futuro, ser insuportável. 

Geralmente esta vergonha surge associada a um pensamento absoluto e dicotômico que divide a história de vida do para-suicida em duas partes: Quem fui e quem vou ser. Entre o Passado e o Futuro.

Um pensamento absoluto, regra geral, permanece teimosamente:

“Eu não quero ser esta pessoa no futuro. Não quero continuar assim!”

“Sinto vergonha de mim mesmo”

A vergonha é aflitiva e mina a auto-estima do para-suicida, inundando-o de pensamento absolutos, categóricos, ligados à destruição da própria pessoa como fim do sofrimento. 

Geralmente o para-suicida não vê qualquer fuga, qualquer possibilidade de reparar uma ou várias escolhas que foram feitas. 

Existe uma ideia determinista: “Não há nada que possa ser feito”

“É o fim da linha”

Este é, geralmente, o quadro emocional e cognitivo que se encontra presente no tema do Suicídio.

O que é fundamental perceber é que quando falamos de Suicídio falamos de auto-estima.

Quando a nossa auto-estima é construída em função da nossa imagem e do que conseguimos alcançar na nossa vida, vivemos numa situação permanente condicional unidireccional em que eu SOU o que TENHO.

Se eu tenho beleza, se eu alcanço os meus objetivos, se eu sou reconhecido, se eu sou elogiado, então a minha auto-estima está equilibrada. 

Mas, se por qualquer motivo eu perco essa possibilidade de TER, o meu SER perde todo o sentido de existir e passo a sentir vergonha de mim mesmo o que me poderá conduzir ao suicídio.

Como se o que eu perdesse definisse a minha identidade. 

Uma pessoa que tem este tipo de auto-estima condicional é, na verdade, prisioneira do seu EGO e da sua permanente necessidade de TER para poder SER. E o risco é justamente viver numa permanente necessidade de provar a si mesmo que pode SER porque TEM.

Na verdade, a sua auto-estima é vulnerável e geralmente foi construída precocemente e alimentada por uma ideia de que para SER tenho de TER - Seja beleza, desempenho académico de excelência, um emprego ou o que for. 

Quando uma pessoa cresce num ambiente de Amor em que é apenas e só é amada porque é;  em que percebe que o amor que recebe não depende das notas que tem ou da sua beleza, ou dos erros que comete, então a equação da sua auto-estima será no sentido de  SER Igual a SER - Então eu SOU, independemente do que tenho e posso sempre redescobrir-me, reinventar-me, reconstruir-me e recomeçar. Não sou prisioneiro do meu EGO, da minha imagem, do que obtive na vida ou do que pretendo obter - O meu amor por mim mesmo não depende de tal.

Se a minha identidade não é definida pelos meus actos, conquistas, palavras então eu poderei sentir vergonha do que fiz - mas não entro numa vergonha identitária porque eu não sou o que faço. 

O tema do Suicídio é o tema da auto-estima.

É um tema extraordinariamente delicado e que nos apanha de surpresa, porque geralmente o suicida vive dentro da sua espiral condicional de auto-estima e fica silenciosamente prisioneiro dela. 

Como podemos prevenir o Suicídio? 

Começando por aceitar e amar as pessoas por elas próprias e não pelo que fazem. Tudo começa aí…

E como podemos detectar uma pessoa com pensamentos suicidas? 

Perceber se a sua auto-estima se alterou fortemente em virtude de uma escolha, de uma situação futura. Estar atento se houve uma súbita e marcada mudança de humor caracterizada por um silêncio grande e um crescente isolamento. 

O que fazer se sabemos que alguém se pretende suicidar? 

Falar abertamente com essa pessoa e procurar que ela assuma um compromisso de marcar imediatamente uma consulta de Psicoterapia, compreender a rede de suporte que essa pessoa tem e não a deixar sozinha na fase aguda da ideação suicida. 

Se se identifica com o que partilhei ou conhece alguém que esteja numa fase de pensamento suicida recomendo vivamente que não hesite um segundo e procure ajuda Psicoterapêutica.

Deixo-lhe o link directo para marcação de consulta.

https://www.antonionortonpsicoterapia.com/marcar-consulta

Um forte abraço 

António Norton


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