• António Norton

Como sair de relações de manipulação


Gostaria de falar sobre um tema relacional importante que surge com alguma frequência nas minhas consultas.


Refiro-me à questão da manipulação.

A palavra manipulação remete para a ideia de convencer alguém a tomar

certas atitudes anulando a sua agressividade saudável e a consequente capacidade de impor limites.


Vou procurar explicar:

Todos os animais são dotados de mecanismos para se defenderem de predadores. Usam a sua agressividade de uma forma saudável para impedir a invasão nociva do seu espaço de segurança.


Se ousamos entrar no território de segurança de um gato e tocar em certas zonas do seu corpo, arriscamo-nos a levar uma unhada; se provocamos um cão podemos ser mordidos e por aí fora…


Os animais têm os seus limites bem definidos e geralmente servem-se da sua agressividade para a defesa do seu espaço.


Nós, humanos, também podemos usar a nossa agressividade para impedir a invasão e a quebra dos nossos limites: um olhar tenso e carregado, um maxilar sobressaído, a exibição dos dentes, um tom de voz alto e preciso, um gesto brusco com as mãos e ainda muitos outros comportamentos que devemos ter ao nosso dispor.


A questão está que nós humanos também aprendemos a diminuir ou a eliminar a agressividade do outro para conseguirmos o que queremos dele. Nós, humanos, cedo na vida aprendemos a manipular.


Mas podemos dizer que existem manipulações ditas inocentes e outras que não o são de todo…


Por exemplo, uma manipulação inocente e sem consequências de maior: darmos um raspanete ao nosso filho de 5 anos e ele desarmar-nos com uma expressão traquina, o que nos devolve uma gargalhada inesperada.


Mas nem sempre a manipulação assim ocorre…


Por exemplo, quando provoca a anulação de nós mesmos; quando conduz à sensação de nos sentirmos usados; quando a nossa autoestima fica por terra. Então os conflitos internos gerados por esta situação não deverão ser vividos de forma leve e despreocupada.


Como é que o manipulador anula a agressividade do outro?


Activando e sobrepondo outras emoções e seus derivados, que assim mascaram ou anulam a zanga.

Para tal, o manipulador recorre, essencialmente, à activação do Medo, do Afecto, da Vergonha ou da Culpa.


O Medo é activado através de situações de intimidação. Percebemos isso, frequentemente, em contextos de dinâmicas laborais de abuso de autoridade nas quais o chefe manipula os seus trabalhadores incutindo-lhes medo.


O Medo também pode ser activado por uma resposta de zanga por parte do manipulador que elimina a agressividade inicial da pessoa que está a ser manipulada e a coloca à mercê do outro.


A manipulação também pode ser activada a partir da atribuição de Culpa. A Culpa tem um peso enorme na capacidade de reduzir a possibilidade da acção e do movimento que a zanga espoleta. A Culpa também contribui para uma sensação de peso e de inação. A pessoa manipulada que aceitou a atribuição da culpa, irá procurar compensar o manipulador e geralmente entra em dinâmicas de anulação e de submissão.

Geralmente a culpa surge da responsabilização do outro pelo sofrimento que lhe está a causar: «Tu é que me fazes sofrer com as tuas atitudes! Como podes fazer-me isso? Não me queres bem?»


A vergonha e a humilhação poderão ser incutidas através da ridicularização da zanga do outro.


A Agressividade também poderá ser esbatida através da demonstração do afeto e da sedução. Palavras doces, meigas, gestos de ternura poderão retirar a agressividade que a outra pessoa poderia apresentar. Geralmente, esta estratégia é usada para preencher a carência afetiva do outro. É algo comum em dinâmicas de sedução nas quais as pessoas são seduzidas para conseguir algo delas, seja algo de natureza sexual, económica, social, entre outras.


Para existir uma dinâmica de manipulação, são necessários dois agentes: quem manipula e quem se deixa manipular.


Esta é uma verdade muito simples, mas importantíssima para entendermos esta dinâmica.


Regra geral, a pessoa que manipula é um especialista nesta “arte” e terá tido modelos de vinculação que lhe fizeram o mesmo. Geralmente é assim que aprendemos a manipular.


Quem se deixa manipular revela sempre insegurança:

E – Insegurança - é uma palavra chave para entendermos a pessoa que se deixa manipular. A sua insegurança impede-a de ter os seus limites bem definidos, permitindo a invasão e a manipulação.


A insegurança impede a manifestação assertiva da expressão de zanga.


Todos nascemos com a capacidade de nos zangarmos para conseguir impor os nossos limites.

Mas a expressão desta emoção poderá deixar de fazer parte do nosso repertório emocional.


E quando tal acontece?

Quando, repetidamente, a expressão da nossa zanga não teve o efeito que queríamos seja através da intimidação do Outro, seja através da humilhação e ridicularização, seja através da atribuição de culpa ou através de mecanismos de sedução.


Quando uma ou mais destas dinâmicas são repetidas continuamente a nossa zanga é reprimida, o nosso corpo deixa de estar disponível para activar a expressão de zanga.


O nosso rosto fica doce, a nossa voz meiga e terna, os nossos olhos brandos e suaves e tornamo-nos permeáveis, alvos fáceis de manipulação.


Quando uma pessoa volta a encontrar a capacidade de se zangar sem ter medo de o fazer, volta a ter esta emoção disponível no seu repertório e o risco de ser manipulada reduz-se substancialmente.


A questão existe quando a maior parte das pessoas, mesmo que queiram reativar a sua zanga, não o conseguem fazer. E porquê?


Porque, geralmente, terão tendência a criar relações com pessoas com quem não se zangam e com as quais poderão ser manipuladas.


Tendem a repetir os padrões relacionais que conhecem….


E é justamente aí que entra a importância fulcral da Psicoterapia.


A Psicoterapia é um espaço seguro onde o Psicoterapeuta, sobretudo se for de Psicoterapia Corporal, perceberá se a agressividade está ou não presente no corpo do cliente e vai ajudá-lo através de intervenções próprias a reencontrar a expressão saudável da sua agressividade.

Se sente que é uma pessoa facilmente manipulável, seja através do medo, da culpa ou da sedução, acredite que a Psicoterapia poderá ser uma ajuda preciosa.


Gostava de dizer-lhe que o conforto de uma palavra amiga também será muito bom, mas duvido que seja suficiente para reencontrar a expressão saudável da sua agressividade e assim sair de um ciclo disfuncional de dinâmicas de manipulação.


Caso queira marcar a sua consulta aqui fica o link


https://www.antonionortonpsicoterapia.com/marcar-consulta


Um forte abraço

António Norton


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